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Mulheres Viajantes: Manifesto Feminista II ~ Bruna Galichio

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Como é ser mulher, feminista e viajar sozinha? Homens, mulheres, amigos, amigas, dos que ficaram em casa e dos que encontro pelo caminho, me perguntam como é ser mulher viajando sozinha. Fazem mil rodeios, perguntam sobre mil coisas até chegarem finalmente ao ponto que mais os intrigam: “Tu não tem medo?”, “Não é perigoso?”, “Já sofreu algum tipo de situação que te se fez se arrepender?”, “Você é doida?” Acho ótimo que homens e mulheres se preocupem e questionem esse aspecto porque mostra que ambos reconhecem, mesmo que de maneira inconsciente, que o simples fato de ser mulher é perigoso.

O que me incomoda nessas perguntas é que elas reproduzem o machismo ao insinuarem que o perigo se dá porque “eu me coloco” nessa situação e nesse contexto vulnerável ao me expor viajando só. É a velha, machista e violenta culpabilização da vítima! Quer dizer (e eu sei que quer!) que se algo acontecer comigo todos vão dizer: “Nossa, que horror! Mas também, que maluca! Onde já se viu uma moça viajando sozinha por aí?!”

Primeiro vamos responder à pegunta. Se tenho medo? Sim, tenho medo todos os dias! Tenho tanto medo de estar sozinha no sertão de Pernambuco ou numa rodoviária à noite ou acampando num camping que só tem o dono e eu quanto tinha medo de ir trabalhar, de ser NOVAMENTE assediada no ônibus, de ser humilhada NOVAMENTE na Av. Paulista por conta das formas do meu corpo, de ser agredida verbalmente OUTRA VEZ por não suportar calada um assédio, de continuar tendo minha voz e direitos silenciados, de precisar, querer e não ter direito a um aborto seguro, de querer ter um filho e não ter direito a um parto humanizado (que não se reduz apenas ao parto normal), de ser preterida por um homem em uma seleção de emprego, de violentar a mim mesma e ao meu próprio corpo querendo me adequar aos padrões machistas de beleza…

A menina de 19 anos estuprada na estação República do metrô de São Paulo em 2015, estava em seu local de trabalho, que aliás, é um dos locais mais movimentados e vigiados da cidade. A maioria dos casos de violência contra mulher ocorrem em ambiente doméstico e são praticados por seus “parceiros”. Em que tipo de “situação perigosa” cada uma das mulheres violentadas se coloca para ser violentada, agredida e estuprada? Usam roupas curtas? Bebem demais? Escolhem mal seus parceiros? Reivindicam seus direitos, escolhas e decisões? Andam sozinhas de madrugada? Se recusam a beijar ou fazer sexo com um cretino que aprendeu que é bom demais para levar um não? São prostitutas e por isso não dignas? Alguém pode me dizer o número de homens violentados e estuprados por mulheres? O número de meninos vítimas de crime de pedofilia cometidos por mulheres? O número de maridos agredidos e com sua individualidade oprimida por ganhar menos ou serem sustentados por suas mulheres?

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Antes que algum “machistinha” fã do Bolsonaro lembre do exemplo da vizinha da prima da namorada que mora na Conchinchina na Serra e use isso como argumento para dizer o quanto ser homem branco e hetero é difícil, a titia aqui vai explicar: o machismo é um sistema de poder que está difundido em todo o campo social. Isso quer dizer a existência de um fato isolado não identifica um sistema opressor chamado supremacia feminina. Todo esse desabafo é para dizer que já sentia medo e já sofri muitas violências vivendo meu dia a dia em São Paulo, indo trabalhar, dirigindo, pegando ônibus e metrô, exercendo minha função no trabalho, saindo só ou com amigos. Essa sensação de medo não é exclusiva da vida que tenho agora.

Tenho plena noção de que é sim mais perigoso viajar só quando se é mulher e de que alguns contextos nos deixam mais vulneráveis do que outros. O que deixo claro é que esse “medo” não pode restringir minha liberdade e me fazer desistir do que amo que é viajar. Assim como não me fez desistir de sair de casa para trabalhar, para encontrar meus amigos à noite, etc., embora muitas vezes algumas violências tenham me traumatizado e tenha me faltado forças.

Viajando sozinha, o que eu notei é que caras babacas continuam sendo babacas em qualquer lugar. Por outro lado, como gosto muito de conversar e conhecer gente nova, estando sozinha conheci muita gente interessante e isso inclui homens. Curiosamente, o que pude notar é que quando permito a possibilidade de um diálogo e minha situação de “viajante solitária” é exposta, isso causa certa intimidação e respeito.

Eu passei SIM por situações de violência, assédio, constrangimento, etc. durante a viagem por ser mulher. Na maioria delas eu estava sozinha, mas absolutamente TODAS as situações foram em contextos urbanos e cotidianos e de forma alguma são exclusivos da minha condição de viajante.

Ocorreram em barzinhos só ou com amigas, em ônibus, na praia, e, principalmente, andando na rua. Sim, andar na rua é difícil, estressante, humilhante e constrangedor! E acredite, isso independe da roupa que você usa. Em Salvador, por exemplo, os homens têm o HÁBITO de mexer com qualquer criatura do sexo feminino que ouse passar por eles. Isso me incomodou profundamente! Já em outras cidades, pude notar que muitas vezes o mesmo cara que pode ser legal em determinado ambiente, se acha no direito de ser um imbecil porque é de noite e porque está numa balada ou num bar.

O machismo está em todo lugar! Para toda mulher (para algumas mais que outras) sair de casa é se expor! Tenho medo porque sou mulher e estou no mundo. E isso basta! Mais que isso, tenho medo do meu próprio machismo, que também me oprime quando coloco em dúvida meu direito à liberdade, quando me faço recuar por medo do machismo dos outros, ou quando julgo a liberdade de outra mulher. Tenho medo de me conformar que tenho que mudar de roupa se não quiser ter meu dia arruinado. Ou pior, de não arruinar meu dia por banalizar o assédio como simples cantada ou elogio, não uma violência e achar que tenho que seguir meu dia normalmente porque afinal, não sou a primeira nem serei a última a passar por isso. Tenho medo de me acostumar ao machismo nosso de cada dia e achar que existe vida numa sociedade onde a violência sistêmica contra as mulheres é normal. Tenho medo de não me indignar, de cansar e esquecer que NOSSA LUTA É TODO DIA!

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