mulheres viajantes · viajando sem grana

Mulheres Viajantes: Mulheres viajando sozinhas ~ Bárbara Alcântara

Dia desses, eu estava conversando com um amigo e, durante o papo, disse algo que saiu com certa naturalidade. Depois de refletir um pouco, percebi o quão cheias de significado e beleza eram aquelas palavras. “Eu sinto que não pertenço mais a lugar nenhum. Minhas raízes estão em mim mesma.” Resolvi entender melhor de onde veio tudo isso.

Desde pequena, tive uma relação muito intensa com a estrada. Meu papis morava em SP e eu, no interior do RJ. Criança, viajava com a minha avó para visitá-lo regularmente. Aos 12 anos, comecei a pegar o ônibus sozinha. Aos 14, me mudei para SP e aí a viagem que eu fazia era no sentido oposto. Mas daquele momento que eu passava comigo, em uma era desconectada, olhando por detrás do vidro da janela, vendo o mundão do lado de fora, eu não abria mão. Porque eu sempre olhava para aquela paisagem imensa e dizia que um dia estaria lá naquele horizonte e desbravaria tudo aquilo. Acho que esse tempo que passamos sozinhas e que somos obrigadas a encarar quem somos (e, principalmente, a gostar da nossa companhia – que é a única presente), faz com que a gente tenha uma relação diferente consigo mesma. A gente passa a se aceitar e a se conhecer melhor.

E então, aos 17 anos, eu fui pela primeira vez: intercâmbio nos Estados Unidos, no norte do estado de Nova York. Foi uma loucura. Eu, que nunca tinha nem saído da região sudeste, ia me aventurar por outras terras, longe da minha família e de tudo o que eu conhecia. Para morar com pessoas estranhas, com costumes diferentes, falando outra língua, com simbologias distintas das minhas… Fechei os olhos e me joguei. Embarquei, fiz a escala em NYC, peguei um aviãozinho e passei pela pior turbulência da minha vida (mas aguentei firme e forte hehe). Depois, mais estrada, pra chegar na “superlotada” cidadezinha de Sackets Harbor, com seus 1.500 habitantes!!!

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Euzinha, recém-saída da maior cidade do Brasil, estranhei um pouquinho existir no mundo lugar tão pacato quanto aquele. Mas a experiência foi maravilhosa! Dei sorte, fui morar com duas mulheres – uma menina, a Jenicca, que tinha a minha idade e estudava na mesma escola que eu e a mãe dela, Carol. Elas eram vegans e eu vegetariana! Mais perfeito impossível. Passei calor, passei frio, fui acampar e assei marshmallows vegans na fogueira, fui apple-picking, vi neve, vi um dos grandes lagos congelado, vi cachoeira e projeto de praia, saí trick or treating no Halloween, fui pra NYC, viajei de trem, peguei nevasca no meio da estrada, escalei montanha, namorei filho de motoqueiro a la Sons of Anarchy, fui coroada rainha do baile (RISOS NERVOSOS), discuti com professor ex-militar de história e comi a melhor ceia de Thanksgiving vegan do mundo (minha única, no caso).

É claro que não foram só coisas boas. Tive os meus vários momentos de homesickness – sentia uma vontade absurda de voltar, chorava por horas sem saber direito o motivo e achava que nunca me adequaria àquele lugar. Isso porque eu deveria ter um contato meio limitado com a família e as pessoas do Brasil. Mas acho que foram exatamente esses perrengues que fizeram da viagem uma coisa tão maluca e que me trouxe tanto aprendizado de vida. É na hora do desespero que a gente aprende a dar aquele famoso jeitinho, meter o famigerado louco e se livrar de situações desagradáveis ou se jogar em momentos inesquecíveis. Descobri que eu conseguia, sozinha, cuidar de mim mesma, independentemente de onde no mundo eu estivesse.

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Alguns anos depois, fui visitar a Jenicca lá nos EUA de novo – mas dessa vez, fui pra D.C., e fiquei hospedada no dormitório da universidade dela. Eu não podia estar lá, então não usava a entrada principal. Quando ela ia pra aula e eu queria passear, eu saía pelo porão, e precisava de uma chave pra abrir a porta de fora para dentro. Então, por uma semana, era sempre a mesma coisa: eu ia andar pela cidade para conhecer os pontos turísticos e, quando voltava, precisava chegar pra algum aluno, na cara dura, e pedir pra ele abrir a porta pra mim. Mas todo mundo foi muito simpático (ainda bem) e eu não precisava esperar (muito), congelando, do lado de fora. A sensação de liberdade de estar em um lugar desconhecido e poder ir para onde eu quisesse a qualquer momento era tão satisfatória que às vezes eu nem sequer sabia o que fazer!

 Fiz uns passeios legais: conheci os principais museus, fui numa feira bem típica do outono em Maryland, treinei com a liga de roller derby da cidade, as D.C. Rollergirls (e ainda saí pra almoçar e beber com elas depois do treino!), assisti o filme Rocky Horror Picture Show numa sessão clássica da meia-noite de sábado, fiquei babando na parte vegan do Whole Foods Market, bebi muito Dr. Pepper (me julguem, eu gosto) e até presenciei, na frente da Casa Branca, o momento em que o Obama foi reeleito!

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Depois disso, a vontade de viajar só aumentou! E não só porque é incrível conhecer lugares novos, mas porque eu descobri que eu não precisava de uma companhia para me divertir e que eu conseguia, sozinha, ter desenvoltura o suficiente para fazer amizades e resolver qualquer pepino que aparecesse pelo caminho. Fiz mais algumas viagens, a maior parte com amigas, pra diferentes lugares do Brasil e da América Latina. Muitas vezes pedindo couch e/ou conseguindo carona porque a grana tava apertada – o que tornava as experiências ainda mais incríveis. Esse negócio de ouvir histórias diferentes, trocar algumas palavras com pessoas que têm as suas vivências próprias, é muito encantador.

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Hoje em dia, moro no interior de SP. O maior motivo deu dizer que não tenho raízes em nenhum lugar que não em mim mesma, é porque percebi que, ao mesmo tempo que eu não me sinto pertencente a nenhum, chamo vários deles de “casa”. Quando vou visitar a minha vó em Volta Redonda, eu falo que vou pra casa. Quando eu vou visitar o meu pai em São Paulo, eu falo que vou pra casa. Quando volto pra Bauru pra estudar, eu falo que vou pra casa. Quando eu tô na estrada – na terra ou no céu, dentro do carro da minha carona, do ônibus ou até mesmo do avião, eu me sinto tranquila. E acho que, no final das contas, a minha casa é em todo lugar que eu puder olhar a paisagem pela janela.

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