mulheres viajantes

Mulheres Viajantes: Aline Veingartner

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Ilha do Japonês, RJ

A primeira vez que viajei completamente sozinha foi em dezembro de 2015. Fui ao casamento de uma amiga em Curitiba. Sou de São Paulo capital. Dois meses antes do evento busquei hospedagem no grupo Couchsurfing das Mina. Eu já tinha familiaridade com a ferramenta porque usava a plataforma para receber pessoas em casa desde a metade de 2015. Eu e meu marido recebemos mais de 30 pessoas em um ano na casa em que vivíamos em São Paulo, quando ainda tínhamos casa. Agora somos do mundo, rs. Bom, nessa viagem a Curitiba consegui hospedagem com dois meses de antecedência. Um pouco antes de eu partir, a moça que me receberia disse que estava doente, que eu poderia ficar na sua casa, mas que não poderia me acompanhar para sair, por exemplo. O casamento era num sábado, mas eu comprei passagens para chegar na sexta e ir embora na segunda para poder conhecer a cidade. Assim, fiz uma postagem no Couchsurfing das Mina perguntando se alguém estava livre no período para dar uns rolês por Curitiba. A Nika Xavier se dispôs a me acompanhar depois do trabalho. Fui de ônibus na sexta de manhã e cheguei lá às 13h mais ou menos. Busquei um lugar para almoçar e andei pela cidade sozinha até a Nika sair do trabalho. A parte mais difícil para mim não foi estar sozinha, nesse caso, mas me localizar. Tenho uma dificuldade tremenda com isso. Sou capaz de me perder com um mapa na mão! Mas nessa ocasião especificamente não me perdi, felizmente. No final da tarde encontrei a Nika, que se revelou uma pessoa amável e até hoje somos amigas. Ela me levou no Largo da Ordem, me mostrou os lugares e por fim me levou a um bar aonde chegaram uns amigos seus. Foi uma noite divertida e no fim das contas acabei dormindo na casa dela mesmo. Ela conhecia a outra moça que ia me receber e conversou com ela para ver se tudo bem.

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Cabo Frio

Eu adoro conhecer gente nova, mas confesso que tenho um pouco de dificuldade de socializar espontaneamente. Ter conversado com a Nika previamente quebrou essa barreira que muito provavelmente eu não teria quebrado se tivesse ido sozinha e às cegas. Eu teria explorado a cidade sozinha, sem dúvida, mas sempre desejando ter uma companhia bacana que de preferência me apresentasse mais gente bacana.

Dois meses antes dessa viagem eu fui para São Thomé das Letras acampar com uma amiga. Fomos com uma espécie de excursão que vimos no Facebook. Ela tem ainda mais dificuldade do que eu de interagir sem um estímulo, mas juntas conseguimos nos aproximar de um pessoal lá e fazer amizades. Inclusive, foi assim que ela conheceu o atual namorado dela.

Mas o que tenho de mais interessante para contar sobre viagem, na verdade, é o que estou vivendo agora.

Na metade de 2013, eu li On The Road, do Kerouac, e desde então passei a alimentar o desejo louco de mochilar pelo mundo. Na época estava com meu ex-namorado e meus planos não o incluíam. Eu pensava em viajar uns seis meses sozinha depois que me formasse. No começo eu ainda não tinha uma noção consolidada de como isto aconteceria. Com o tempo o plano foi ganhando forma, em especial depois que terminei com meu ex (cujos planos de vida não coadunavam com os meus) e conheci meu atual marido.

O Diego (meu marido) tinha a mesma vontade que eu. Nosso relacionamento começou de uma forma bastante confusa (eu ainda estava com meu ex quando o conheci), mas isto não vem ao caso agora – o que posso dizer é que foi por conta de termos esse mesmo desejo de viajar que nos ligamos profundamente. Porque nós dois sentimos que não nos encaixamos em nenhum grupo, nos sentimos deslocados, perdidos no mundo do capital, e para sobreviver sentimos que precisamos de algo que fuja daquilo que nos foi predeterminado desde que nascemos: fazer faculdade, arrumar um trabalho, casar, ter a casa própria e fazer filhos. Com o tempo de convivência descobrimos que temos muitas diferenças, mas essa afinidade foi fundamental para que nos aproximássemos cada vez mais e terminássemos casados.

Depois de seis meses de namoro nós decidimos morar juntos e a partir de então começamos a efetivamente nos planejar para nosso mochilão. Decidimos que esperaríamos os dois se formarem (eu em Letras, ele em Ciências Sociais), que a viagem seria pela América Latina e o esquema seria fazer trabalho voluntário em troca de comida e hospedagem.

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Cabo Frio

Na metade de 2016, o Diego se formou, em setembro nos casamos no cartório e em outubro vendemos tudo que tínhamos, devolvemos a casa que alugávamos e botamos o pé na estrada!

Agora faz dois meses que começamos e vou focar nas situações que se relacionam mais especificamente às questões de gênero.

Em primeiro lugar, eu tenho certeza de que as pessoas próximas, amigos e família, só não estão mais estarrecidos com a minha decisão porque estou acompanhada de um homem. Uma amiga inclusive me disse, com essas palavras: “confesso que desde o começo fiquei bem mais tranquila por vocês irem juntos”. E não tenho dúvidas de que minha família e amigos partilham desse sentimento.

Segundo, eu não teria coragem de pegar carona na estrada se estivesse sozinha, ainda que conheça diversas moças que fazem isso e dá certo. Eu não buscaria Couchsurfing em casa de homem também e, falando nisso, hoje mesmo aconteceu uma situação bastante delicada que eu até compartilhei lá no grupo, vou copiar aqui:

“Manas, preciso desabafar aqui e ouvir umas palavras de apoio para ver se me acalmo um pouquinho, porque fiquei bem triste com uma situação que acabou de acontecer.

Amanhã faz dois meses que estou mochilando com meu marido. Neste momento, estamos na casa de um couch em Florianópolis. É um homem que recebemos em nossa casa no ano passado (foi tudo bem, boa experiência) e que agora está retribuindo a hospitalidade. Tudo esteve perfeito desde que chegamos. Uma ótima recepção, nada do que reclamar. Pois bem…

Hoje no almoço veio um amigo dele. Estávamos os quatro: eu, meu marido, o anfitrião e seu amigo, ambos homens, brancos e europeus. Não lembro em que momento o assunto enveredou para alisamento de cabelos e racismo e logo de cara já deu para sentir que eles tinham posições bastante problemáticas.

Não consigo reconstituir toda a conversa agora, mas foram duas horas extremamente tensas, em que meu coração acelerou muito, tive vontade de chorar e não conseguia falar nada do que vinha à minha cabeça. Nunca me vi numa situação assim. É como se eu estivesse lendo todos os comentários do G1, só que ali, bem na minha frente.

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Cabo Frio

Fui chamada de “machista” por dizer que não é a mesma coisa eu bater no meu marido e ele me bater. Quando eu disse que sempre que saio acontece algum tipo de assédio o amigo disse: “ah, então você se acha a Gisele Bündchen”. Eles acreditam que a história não serve para nada, que nós temos que olhar só o que tem de bom, não a parte trágica. Que precisamos olhar pro futuro e que cada um tem opção de escolher o que quer, que se alguém tá na merda é porque quer… Se você vive na favela, em péssimas condições, é porque quer, sempre. Que racismo não existe, tá nos olhos de quem vê. É vitimismo… Que existe racismo contra branco. Que os dados que a gente tem (meu marido, sociólogo, 10 anos de formação…) são enviesados (sobre diferença salarial entre homens e mulheres, negros e brancos, sobre ainda haver SIM trabalho escravo). Que tudo que a gente problematiza é porque somos alienados (!) Que a mulher que sofre estupro tem responsabilidade, porque fica pensando nisso e aí “atrai”… Gente, era tanta coisa terrível… Bom, basta ler comentários de qualquer notícia nos grandes portais e vocês já vão ter uma ideia do que foi que tive que ouvir ao longo dessas horas. O amigo chegou a defender que é preciso tirar o tema escravidão dos estudos porque é o fato de a gente ficar tão focado na história das coisas ruins que faz com que elas aconteçam. GENTE, SOCORRO.

Agora tá meio que um climão, mas a sensação pior é não ter conseguido falar tudo que eu queria. A sorte é que meu marido é bem desconstruidão e conseguiu ~contornar~ a situação, mas até mesmo ele era silenciado o tempo inteiro por esses dois caras brancos, héteros, europeus que acham que a realidade é aquilo que nós fazemos dela, que se a gente acha que existe racismo e machismo então existe, mas como eles acham que não existe, então não existe (?)

Cada vez que eu penso nisso parece que fica pior, sabe? E as piores falas foram as do amigo, não do nosso anfitrião, mas, mesmo assim, ele concorda e coaduna com essas ideias. Pela primeira vez eu tô me sentindo mal por não ter conseguido falar em um debate assim, não só porque eles interrompiam, mas porque realmente não conseguia elaborar tudo que sei e sinto, e mesmo a minha experiência pessoal como mulher não vale nada para eles. Eu travei como quando tinha que apresentar seminário para uma sala. Ou como quando discutia com a minha mãe e não conseguia argumentar porque as lágrimas não deixavam.

Manas, como vocês fazem em situações assim? Não tô dizendo só de conseguir chegar a convencer os homi de alguma coisa, seja sobre machismo, racismo, etc., mas o básico: conseguir elaborar uma fala e falar direitinho sem gaguejar e sem vontade de chorar e querer morrer achando que o mundo é uma bosta por causa de gente assim?

PS: depois dessa experiência, mesmo estando acompanhada do meu marido, definitivamente não me sinto mais à vontade para buscar couchsurfing em casa de homi”.

 Eu sei que viajar sozinha tem suas vantagens. Uma delas é que você não precisa ficar negociando. Quando você viaja com alguém, independentemente de quem seja, é preciso negociar o tempo todo, a cada decisão. Tem vezes que eu e o Diego entramos num embate, mas sempre resolvemos de forma pacífica. Não concordamos em tudo, mas estamos ok com isso. Além disso, a gente pode se complementa. Ele tem habilidades que eu não tenho e vice-versa. Por exemplo, ele é muito mais comunicativo do que eu, e na situação que postei no grupo ele conseguiu manter a calma e falar, o que eu não consegui.

 

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Arraial do Cabo
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